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Zezé Motta: Um Monólogo que Transborda Poesia e Ativismo

Zezé Motta tá brilhando no palco! Até 5 de outubro, a atriz e cantora de 81 anos apresenta seu primeiro monólogo, “Vou fazer de mim um mundo”, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro. Depois de passagens por Brasília e Belo Horizonte, a peça chega ao Rio com toda a força de sua mensagem. Olha só: um espetáculo incrível!

No palco, ao lado da percussionista Mila Moura e do guitarrista Pedro Leal David (que também assina a direção musical e os arranjos), Zezé Motta embarca numa jornada emocionante. A dramaturgia, criada por Elissandro de Aquino a partir da obra da icônica Maya Angelou (1928-2014), intercala canções e trechos do livro “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” (1969), a autobiografia que revelou a força da escritora e ativista norte-americana.

Aquino, com maestria, tece uma narrativa que toca em sentimentos universais da população negra. E Zezé, meu Deus, como ela interpreta! No final, num momento arrebatador, ela homenageia figuras emblemáticas como Abdias do Nascimento (1914-2011), Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Clementina de Jesus (1930-1987), Elza Soares (1930-2022) e Preta Gil (1974-2023).

A força da poesia e da música é o que realmente me tocou. É através delas que Zezé supera o horror do racismo e da violência sexual que marcaram a vida de Maya Angelou nos EUA dos anos 30 e 40, época de profunda segregação. A história de Maya, estuprada aos oito anos pelo namorado da própria mãe, é de cortar o coração. Apesar do trauma que a levou ao silêncio, ela encontrou na leitura, principalmente da poesia, a força para se expressar.

A cenografia de Claudio Partes é belíssima, evocando as plantações de algodão do sul dos Estados Unidos, cenário do relato autobiográfico. A música, com arranjos de Pedro Leal David, tem uma sonoridade única, que mescla elementos da diáspora africana com o blues. Como o próprio diretor musical descreve: “Nossa proposta foi deixar esses rios se encontrarem, trazendo o blues para o violão de nylon…”. Os arranjos sublinham a tensão das canções, especialmente nos momentos em que Zezé denuncia os abusos sofridos por Maya.

O repertório musical é um passeio pela cultura afro-brasileira, com referências a orixás como Xangô, e ao blues, culminando no discurso ativista de “A Carne” (Seu Jorge, Ulisses Cappelletti e Marcelo Yuka, 1998), canção que Elza Soares, a própria personificação da força feminina negra, abraçou com maestria.

Antes do final, num momento emocionante, Zezé canta “Magrelinha” (1973), de Luiz Melodia (1951-2017), e, numa surpresa linda, “Amor de Índio” (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1978). A delicadeza com que ela interpreta essa última canção reforça a poesia e a humanidade que salvaram Maya Angelou.

“Vou fazer de mim um mundo” é mais que um espetáculo; é um manifesto, um grito de orgulho negro, conduzido pela beleza e pela força da música. Imperdível!

Fonte da Matéria: g1.globo.com