Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros, nos deixou aos 88 anos. A gente vai lembrar dele para sempre pelas “Comédias da Vida Privada”, pelas “Mentiras que os Homens Contam” e pelas “Comédias para se Ler na Escola”, claro. Mas, olha só, reduzir sua obra a crônicas de humor cotidiano não faz jus à sua genialidade. Veríssimo, com sua escrita refinada, brincou com a metafísica como ninguém, antes ou depois dele.
Tipo assim, ele partiu do trivial para alcançar o cósmico, como um investigador metafísico nato. E usou o humor pra isso – um cara tímido e introspectivo, que ironia, né? Isso revela uma escolha, não só estética, mas ética: o insondável pode ser engraçado, o mistério, uma piada. Afinal, por que tanto desespero se as respostas às grandes perguntas vão ficar eternamente escondidas? A angústia, na visão dele, pode render um chiste – e ele era mestre nisso! Seus personagens viviam situações ao mesmo tempo existenciais e banais, no limite do cômico e do absurdo.
Pega esse exemplo: um conto em que dois amigos de infância se reencontram décadas depois, um como assaltante, o outro, assaltado. O clímax? Na biblioteca da vítima, com o cofre ali perto. O cara tenta se salvar com um discurso filosófico improvisado, achando que seu intelecto, lapidado numa vida privilegiada, vai comover o assaltante. Mas o outro, representando a “vida real”, tá pouco se lixando. Veríssimo, esperto, joga com a gente: a metafísica salva ou não serve pra nada?
Ele fazia a mesma graça com a poesia, sabe? O bordão “Poesia numa hora dessas?”, que batizava uma seção em suas colunas, era pura Veríssimo. Situações tensas, limite, e alguém resolvendo poetizar – pra desespero dos outros. A poesia, como a metafísica, é uma busca apaixonada pelo todo. Na ironia dele, a gente percebe que, pra Veríssimo, toda hora era hora de poesia e filosofia.
As pistas para os detetives: Dois personagens icônicos dele eram investigadores. Ed Mort, um detetive noir meio charlatão, era a cara daquela mistura de teoria e pastiche, uma marca registrada dele. Mort representa a estupefação diante do mistério, a face concreta das coisas mundanas, dos segredos e vaidades humanas. Já o Analista de Bagé, um psicanalista freudiano… até a página três! Aí ele temperava Freud com o “joelhaço”, um golpe de joelho inspirado na sabedoria gaúcha, resolvendo os problemas existenciais dos pacientes com um chute. O Analista espelha o fascínio de Veríssimo pelo mistério da alma, com aquela alternância entre o sério e o irresponsável.
Ele citava Freud, grandes pensadores, livros sagrados, artistas… Veríssimo lia tudo, consumia arte, e retribuía o bem que outros autores lhe faziam, discutindo suas obras de forma deliciosa com o público. Jorge Luis Borges era um dos favoritos, aparecendo em vários textos, jogando xadrez com ele ou ajudando a resolver casos. Pouca gente fala da semelhança entre a literatura dos dois, talvez porque Borges é visto como “complicado” e Veríssimo, acessível. Mas, na real, eles tinham muitas coisas em comum. Veríssimo tá muito mais perto de Borges do que a gente imagina! A interseção tá nos temas metafísicos disfarçados de banalidades, na prosa concisa e na escolha meticulosa das palavras.
Prosa anedótica: Borges dizia que publicava contos e ensaios porque tudo que tinha a dizer cabia ali – e porque tinha preguiça de romances, ironizava. Ele escrevia de forma tão densa que cada palavra valia por capítulos. Veríssimo era um mestre nisso, um dos maiores do Brasil nos séculos XX e XXI. Um nome no começo de um conto, e pronto, a gente já sabia tudo sobre o personagem. Os Peçanhas, os Almeidas, as Soraias… Um universo se abria com uma frase. Uma esposa que conta ao marido que seu primeiro namorado se chamava “Mendoncinha”. Ou um traço físico que revelava tudo: uma pinta perto da boca, um lábio que tremia, sobrancelhas expressivas.
Cenários sucintos que nos transportavam: “Ele, de tirolês. Ela, odalisca.” (conto “Bandeira Branca”). E pronto, a gente já tá no baile de Carnaval, sentindo as texturas, palpitando pelo romance.
Despedida: Com graça e inteligência, Veríssimo nos falou de tudo – amor, sexo, pessoas, ciência, política, tempo, nada. Em seus contos, Drácula e Batman (dois morcegos, como o Drácula gosta de lembrar) trocavam ideias existenciais, Einstein e Deus discutiam a relatividade, casais improváveis se formavam, e charlatães tinham seus momentos de glória. A vida é tão absurda que pode ser eterna, como talvez diria Friederich Nietzsche (?), o delegado alemão que aparece num conto de Veríssimo no Rio. A vida é eterna enquanto houver um Veríssimo para ler, um Peçanha no almoxarifado, um Almeida no jurídico e uma Ritinha na contabilidade.
Fonte da Matéria: g1.globo.com