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Morre Luis Fernando Verissimo, gigante da literatura brasileira, aos 88 anos

A literatura brasileira está de luto. Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores do país, faleceu aos 88 anos neste sábado (30), vítima de complicações de uma pneumonia. Ele estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento desde 11 de agosto. A notícia pegou a todos de surpresa, gerando uma onda de comoção nas redes sociais e na mídia.

Verissimo, um nome que transcendeu as páginas dos livros, deixou sua marca indelével na TV, no cinema e no teatro. Com mais de 70 títulos publicados e impressionantes 5,6 milhões de cópias vendidas – entre crônicas, romances, contos e quadrinhos – seu legado é imenso e, como muitos afirmaram, inesquecível.

A escritora e jornalista Cíntia Moscovich, amiga próxima de Verissimo, falou com a GloboNews sobre a perda. “Ele era muito presente, sabe? Estava sempre perto de nós, que vivemos de literatura”, lembrou, emocionada. “Verissimo era um cara que unia, que criava pontes, em Porto Alegre e em todo o Brasil. Ele nos conectava aos diferentes ‘Brasis’ que existem, tanto no universo literário quanto no afetivo. Ele não era muito de falar, mas de *observar*, e isso falava muito”, completou. (Veja a entrevista completa: [link para a entrevista]).

Diversas personalidades lamentaram a morte do escritor. O presidente Lula, em publicação no X (antigo Twitter), destacou a multiplicidade de talentos de Verissimo e sua capacidade de alcançar milhões de leitores com suas crônicas, contos, quadrinhos e romances. “E, como poucos, soube usar a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo, defendendo a democracia”, escreveu o presidente, que ainda enviou condolências à viúva Lúcia Veríssimo e aos familiares.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) também se manifestou em sua página oficial no Instagram, prestando homenagem e solidariedade a Lúcia, aos filhos Fernanda, Mariana e Pedro, aos netos, amigos e leitores. A mensagem da ABL foi simples e comovente: “Verissimo nos ensinou a imaginar uma vida mais leve”.

Diversos outros artistas e intelectuais expressaram sua dor e admiração pelo trabalho de Verissimo. O cartunista Angeli escreveu: “Todo amor para Lúcia, Fernanda, Mariana, Pedro e família. Imensurável é ‘o pai'”. Itamar Vieira Junior, autor de “Torto Arado”, publicou: “Uma lágrima e muitas salvas, Mestre Luís Fernando Verissimo!”. Walcyr Carrasco, dramaturgo, o descreveu como “o cronista da vida simples, das emoções humanas mais verdadeiras”. Já Arthur Dapieve, jornalista que mediou um bate-papo entre Verissimo e Zuenir Ventura que resultou no livro “Sobre o tempo”, afirmou que o legado do escritor “não vai se esvair”. Para Dapieve, Verissimo “sempre foi uma consciência crítica em relação ao Brasil, à imprensa, à vida no mundo e à condição humana. Ele mostrou que é possível ser profundo e sério, ao mesmo tempo leve e divertido”. Dapieve arrisca ainda uma previsão: “O sobrenome dele vai virar sinônimo de humor sutil. Assim como falamos ‘shakespeariano’ e ‘kafkiano’, ‘verissimiano’ vai definir um jeito de encarar a vida”.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), também prestou sua homenagem, lembrando personagens inesquecíveis como o Analista de Bagé, Ed Mort e a Velhinha de Taubaté. A escritora Martha Medeiros, por sua vez, enfatizou a genialidade inquestionável do autor e o impacto da notícia de sua morte: “Por mais que a gente pense que está preparado, a morte é sempre um baque, uma violência”.

Verissimo, que nasceu em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, tinha Parkinson e problemas cardíacos, inclusive com a implantação de um marcapasso em 2016. Em 2021, sofreu um AVC, o que impactou sua mobilidade e comunicação. Ele deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, três filhos e dois netos.

A informalidade em sua escrita, Verissimo dizia, era uma herança de seu pai, o também escritor Érico Verissimo, autor de “O Tempo e o Vento”. A carreira de Luis Fernando começou no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, em 1966, como revisor. Depois, trabalhou como tradutor no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, “O Popular”, foi lançado em 1973.

Discreto em seus hábitos, Verissimo continuava morando na casa onde cresceu, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, comprada em 1941 por seu pai. Metódico, interrompia o trabalho apenas para o almoço, preparado por Lúcia, e para assistir ao Jornal Nacional à noite. Sua paixão pelo jazz era conhecida, e ele costumava dizer: “Música é sentar e ouvir”.

Criador de personagens icônicos como os de “Ed Mort e outras histórias”, “O analista de Bagé” e “A velhinha de Taubaté”, Verissimo também foi roteirista do programa humorístico “TV Pirata” e autor de sucessos como “Comédias para se ler na escola” e “As mentiras que os homens contam”. A série “Comédias da vida privada”, baseada em seu livro de mesmo nome, foi exibida na Rede Globo.

Embora tímido, como ele mesmo admitia – “Tenho horror de dar entrevistas”, chegou a confessar -, sua escrita fluía livremente. “Essa é uma das vantagens da crônica: a gente pode ser o que quiser”, costumava dizer. Sua paixão pelo Internacional, time que inspirou o livro “Internacional, Autobiografia de uma Paixão”, era outra de suas marcas registradas. Ele colecionava memórias inesquecíveis do clube, desde jogos no antigo Estádio dos Eucaliptos ao título do Mundial de Clubes de 2006.

A morte de Luis Fernando Verissimo representa uma perda irreparável para a cultura brasileira. Seu humor inteligente, sua crítica social perspicaz e sua escrita impecável deixarão saudades por muito tempo. Seu legado, como muitos afirmaram, permanecerá vivo na memória de seus leitores e na riqueza de sua obra.

Fonte da Matéria: g1.globo.com