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Aenaria: A cidade romana que reapareceu do mar após 2 mil anos

Ísquia, uma ilha vulcânica no Mar Tirreno, na região da Campânia, na Itália. Há quase dois mil anos, uma erupção vulcânica fez a cidade portuária romana de Aenaria desaparecer nas profundezas. Hoje, escavações subaquáticas revelam uma história fascinante, quase inacreditável! A gente embarca nessa aventura?

Segurei a respiração, peguei na mão estendida do capitão e entrei no barco. As ondas brilhavam sob meus pés, separadas de mim apenas por uma fina lâmina de vidro. Que emoção! Ao partir, a imensa Baía de Cartaromana se abriu diante de nós, espetacular! Penhascos imponentes emergiam das ondas azuis. Turistas e moradores locais tomavam sol na ponte que leva ao Castelo Aragonês, uma fortaleza medieval de 2.500 anos, construída numa ilhota que se liga à ilha como a cauda de uma baleia.

Dez minutos depois, chegamos a uma área delimitada por boias, marcando o local das ruínas. Incrível! Pressionando as mãos contra o fundo de vidro do barco, vi, através da água turquesa, entre peixinhos listrados, uma pilha de pedras. À medida que a vegetação subaquática se afastava, percebi: as pedras formavam um retângulo alongado, com laterais revestidas de tábuas de madeira. Era o cais de uma cidade antiga, perfeitamente preservada na escuridão por séculos! Parecia Roma antiga ali, tão perto que dava quase para tocar!

**A Erupção:** Em Ísquia, por volta do ano 180, o vulcão Cretaius entrou em erupção. As ondas de choque fizeram Aenaria submergir. Pelo menos, é o que os arqueólogos acreditam. Diferente da erupção do Vesúvio em 79 d.C., documentada por Plínio, o Jovem, horas antes da destruição de Pompeia, não há registros escritos dessa catástrofe em Ísquia. Por quase dois mil anos, as ruínas permaneceram submersas na Baía de Cartaromana, escondidas sob sedimentos e material vulcânico.

Os primeiros indícios surgiram em 1972, quando mergulhadores encontraram fragmentos de cerâmica romana e lingotes de chumbo na costa leste da ilha. A descoberta intrigou os arqueólogos, mas as investigações seguintes, lideradas por Don Pietro Monti e Giorgio Buchner, não avançaram. A baía foi isolada, e o mistério permaneceu por quase 40 anos.

Em 2011, velejadores locais retomaram a busca, escavando no fundo do mar. A dois metros abaixo do leito vulcânico, encontraram as ruínas de um enorme píer romano. Escavações posteriores revelaram moedas, ânforas, mosaicos, vilas costeiras e restos de madeira de um navio. Por séculos, Aenaria ficou entre a história e o mito. Sua redescoberta reescreveu a história de Ísquia e oferece aos visitantes a chance única de mergulhar numa parte da história que parecia perdida para sempre.

**Um Passado Inquietante:** Até então, a história de Ísquia era essencialmente grega. A ilha foi a primeira colônia grega na península Itálica, fundada por volta de 750 a.C., no norte da ilha. Os gregos a chamavam de Pithecusae e usavam as fontes termais vulcânicas. Hoje, Ísquia é um renomado centro de bem-estar, apesar de estar sobre o supervulcão dos Campos Flégreos. Essa geologia moldou suas paisagens, mas também, acreditava-se, impediu a colonização romana permanente.

Quando os romanos conquistaram Pithecusae (por volta de 322 a.C.), rebatizaram a ilha de Aenaria – nome que aparece em textos antigos, de Plínio, o Velho a Estrabão, frequentemente ligado a eventos militares. Mas, ao contrário dos gregos, que deixaram necrópoles, fornos e cerâmica, os romanos deixaram poucos vestígios. Estudiosos especulavam que os romanos estiveram na ilha, mas não a colonizaram, talvez devido à atividade vulcânica. “O nome estava documentado”, afirma Giulio Lauro, morador local, “mas ninguém encontrava o sítio.” Arqueólogos procuravam a Ísquia romana no continente, mas ela estava submersa!

**Redescoberta Moderna:** Lauro, fundador da Marina di Sant’Anna, junto com grupos culturais locais, financiou as escavações por 15 anos. “Eu amo o mar”, diz ele. “Em 2010, pensei: por que não tentar?” O plano era criar excursões subaquáticas. “Então surgiu a ideia: vamos ver se há uma história mais profunda na nossa ilha”, conta Alessandra Benini, arqueóloga líder do projeto. Obter autorizações, treinar pessoal, garantir financiamento… foi um desafio! “Começamos do zero. Tivemos a sorte de acreditar. E encontrar!”, completa Lauro. A narrativa finalmente foi reescrita. “Acreditava-se que os romanos nunca construíram uma cidade em Ísquia. Foi exatamente o oposto!”, afirma Benini.

Aenaria voltou do mar! Será que os banhistas que mergulham na Baía de Cartaromana sabem o que existe no fundo? “A maioria dos moradores locais sabe, graças aos arqueólogos”, diz a guia turística Marianna Polverino. “Mas poucos visitantes conhecem Aenaria ou sabem que podem visitá-la.”

A cada verão, Benini e sua equipe escavam. O progresso é lento devido à falta de recursos. “Eles investem em Herculano e Pompeia”, lamenta a arqueóloga Maria Lauro. As equipes trabalham de maio a outubro, devido à agitação do mar. Visitantes podem fazer passeios em barcos com fundo de vidro ou mergulhar. “Você vê os arqueólogos trabalhando, os equipamentos…”, explica Benini. Os passeios começam com um vídeo 3D, onde artefatos são exibidos sobre uma camada de areia, evocando o fundo do mar. Andei sobre ânforas, lamparinas a óleo e opus spicatum (“típico das antigas lojas romanas”, diz Benini). O vídeo, mostrando um submarino chegando a uma Aenaria reconstruída digitalmente, é infantil, mas me fascinou! O píer segue pelo litoral, e além, uma cidade romana com ruas de paralelepípedos e edifícios com colunas! Imagino alguém, talvez um soldado romano, aterrorizado vendo o píer ruir…

Benini imagina uma onda tipo tsunami, ou terremoto, destruindo as estruturas e arrastando tudo para o mar.

**Reescrevendo a História Antiga:** A cada verão, a imagem de Aenaria fica mais clara, mas persiste a dúvida sobre sua verdadeira identidade. As ruínas seriam uma cidade inteira? “Aenaria referia-se à ilha toda. Aenaria é Ísquia, isso é inquestionável”, explica Benini. “Encontramos um assentamento romano com um porto conectado ao Mediterrâneo, e presumivelmente, uma área habitada além dele.”

A datação por radiocarbono estabeleceu a idade das estacas do píer entre os anos 30 e 75 d.C. A descoberta de um naufrágio em 2020 revelou equipamentos navais, como um poste de amarração de bronze em forma de cabeça de cisne (típico de embarcações militares romanas), e objetos como estilingues de chumbo, sugerindo que Aenaria era um posto militar importante controlando o Golfo de Nápoles. As ânforas (142 variantes de argila de 12 áreas mediterrâneas, da Campânia ao Levante) demonstram a amplitude de suas conexões. Análises recentes mostraram que o chumbo veio da Espanha, revelando a rede intercultural de Aenaria.

“Provavelmente havia uma pequena vila perto do porto”, diz Benini. “Encontramos milhares de mosaicos, azulejos, pentes de madeira, agulhas… Esses objetos não se relacionam apenas à navegação ou comércio. Eles sugerem uma área residencial.” Duas vilas costeiras foram descobertas, com galerias em forma de túnel, alcovas e vestígios de banhos romanos. “As ruínas oferecem um vislumbre da vida dos antigos habitantes”, diz Polverino. Era um centro do comércio mediterrâneo.

**Olhando para o Futuro:** Perguntei a Benini o que espera encontrar este verão. “Meu sonho é encontrar as fundações da cidade residencial. Se encontrarmos o porto, saberemos que havia uma cidade”, diz ela. A equipe espera usar equipamentos mais avançados, mas precisa de mais investidores. O desafio é alcançar um público maior. “Estamos compartilhando uma parte da história de Ísquia que estava faltando”, diz Benini.

Fonte da Matéria: g1.globo.com