** Olha só que história! Um “Retrato de Dama”, obra-prima do mestre italiano Giuseppe Ghislandi (1655-1743), deu o ar da graça depois de mais de 80 anos sumido. A pintura, roubada por nazistas de um negociante judeu em Amsterdã, na Holanda, foi encontrada – e perdida de novo! Acontece que a imagem do quadro apareceu no site de um corretor de imóveis argentinos, numa casa à venda perto de Buenos Aires. Uau!
A casa, segundo apurou o jornal holandês Algemeen Dagblad (AD), pertencia a um oficial nazista de alta patente que, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), fugiu da Alemanha pra América do Sul. A foto mostrava o “Retrato de Dama” pendurado na parede, acima de um sofá. A filha do oficial colocou a casa à venda, e a obra, que consta de um banco de dados de arte perdida na guerra, foi identificada.
Só que… aí a coisa ficou tensa. Numa batida policial na casa, o quadro sumiu! O promotor federal Carlos Martínez declarou à imprensa argentina que o caso está sendo investigado como possível ocultação de contrabando, como informa o jornal argentino Clarín. Duas armas foram apreendidas na operação, mas, segundo o jornal, a mobília estava toda revirada e o quadro não estava mais lá. Onde foi parar, hein?
Na real, essa pintura faz parte de uma coleção de centenas de obras roubadas de Jacques Goudstikker (1897-1940), um comerciante de arte holandês que ajudou judeus a fugir durante a guerra. Infelizmente, Goudstikker morreu num acidente no mar enquanto escapava da Holanda, e seu corpo foi sepultado na Inglaterra. Mais de 1.100 obras de sua coleção foram adquiridas por oficiais nazistas numa venda forçada após sua morte; entre eles, o marechal Hermann Göring (1893-1946).
Algumas obras foram recuperadas na Alemanha depois da guerra e estão expostas no Rijkmuseum de Amsterdã. A única herdeira viva de Goudstikker, sua nora Marei von Saher, recuperou 202 obras em 2006, segundo o AD. Mas esse “Retrato de Dama” continuava desaparecido, até agora.
A investigação do AD descobriu que o quadro pertencia a Friedrich Kadgien (1907-1979), oficial da SS e assessor financeiro de Göring. Kadgien fugiu para a Suíça em 1945 e depois se mudou para o Brasil e Argentina, onde fez sucesso como negociante. Documentos americanos o descrevem como uma “cobra da pior espécie”, e um arquivo diz: “Parece possuir bens substanciais, ainda poderá ter valor para nós”.
Os repórteres do AD tentaram, por anos, falar com as filhas de Kadgien em Buenos Aires, sem sucesso. Até que, numa virada de sorte, uma delas colocou a casa do pai à venda. Annelies Kool e Perry Schrier, da Agência de Patrimônio Cultural da Holanda (RCE), analisaram as imagens e confirmaram a autenticidade do quadro.
Peter Schouten, do jornal holandês, relatou que há evidências de que o quadro foi retirado logo após as reportagens sobre seu reaparecimento. No lugar, agora, há uma tapeçaria grande com cavalos e cenas da natureza. A polícia acredita que outro objeto costumava estar ali.
Ainda mais impressionante: outra obra de arte roubada foi encontrada nas redes sociais de uma das irmãs, uma natureza-morta floral de Abraham Mignon (1640-1679). As tentativas de contato com as irmãs fracassaram. Uma delas disse ao jornal: “Não sei qual informação você quer de mim e não sei de qual pintura você está falando”.
Os advogados do espólio de Goudstikker afirmam que farão de tudo para recuperar a pintura. Von Saher declarou: “Minha família deseja trazer de volta todas as obras de arte roubadas da coleção de Jacques e restaurar o seu legado”. A história desse quadro, meu amigo, tá longe de acabar.
Fonte da Matéria: g1.globo.com