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Fuga de Milionários do Brasil: Mito ou Realidade? Dados Inéditos da Receita Revelam a Verdade

A reforma do Imposto de Renda, que prevê aumento de impostos para os mais ricos a fim de compensar a isenção para quem ganha até R$ 5 mil, reacendeu um debate antigo: será que os milionários estão mesmo abandonando o Brasil em massa? A consultoria Henley & Partners, especializada em vistos “golden visa”, jogou gasolina na fogueira com uma projeção assustadora: 1.200 milionários deixariam o país em 2025, um aumento de 50% em relação a 2024, tornando o Brasil o campeão latino-americano de “êxodo milionário”. Só que tem um porém…

A metodologia da Henley & Partners é questionada por especialistas. Para ter a resposta definitiva, a BBC News Brasil foi atrás de dados oficiais, usando a Lei de Acesso à Informação (LAI) para pedir à Receita Federal o número de declarações de saída definitiva do país, divididas por faixa de renda. E olha só o que descobrimos!

O resultado foi um levantamento inédito, que surpreendeu até os experts. Sim, o número de milionários deixando o Brasil aumenta desde o fim da pandemia. Mas a história não é tão simples assim. A análise da *proporção* de milionários que saem a cada ano mostra uma realidade bem diferente: menos de 1% abandona o país anualmente, e esse percentual vem *caindo* desde 2017! Isso mesmo, apesar do burburinho sobre aumento de impostos nos últimos dois anos.

Por que essa diferença? É crucial olhar para a taxa de saída em relação ao número total de milionários no Brasil, que cresce a cada ano. Segundo especialistas, essa relação é muito mais precisa para avaliar a real dimensão do fenômeno. Manoel Pires, coordenador do Observatório de Política Fiscal do Ibre/FGV, resume bem: “Olhando os dados, é difícil dizer que há uma fuga de milionários por causa da agenda tributária, embora haja saídas, talvez por outros motivos.”

Mas como definir um “milionário”? A Receita utilizou a renda anual declarada no Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF) do ano anterior à saída, com faixas de: até R$ 600 mil; de R$ 600.001 a R$ 1 milhão; de R$ 1.000.001 a R$ 1 bilhão; e acima de R$ 1 bilhão. Consideramos milionários aqueles com renda anual acima de R$ 1 milhão, critério usado, por exemplo, pelo Ipea, e que evita a volatilidade da cotação do dólar, usada em outros estudos.

Os dados da Receita mostram que o maior número de saídas de milionários ocorreu em 2017, ano marcado por recessão, crise política (impeachment de Dilma Rousseff), Operação Lava Jato e uma lei que permitiu a regularização de ativos não declarados no exterior. Pedro Humberto Carvalho Junior, pesquisador do Ipea, explica: “Naquela época, a fiscalização estava bem mais rigorosa, com acordos internacionais facilitando a troca de informações. Quem pôde, legalizou e mudou de residência fiscal.”

Após uma queda durante a pandemia, o número de saídas voltou a crescer a partir de 2022. Em 2025, até agosto, 1.446 milionários deixaram o Brasil, número próximo ao recorde de 1.461 em 2017. Mas, como destaca Carvalho Jr., olhar só para o número absoluto é enganoso.

Ao comparar o número de saídas com o total de milionários, a taxa de saída anual caiu desde 2017, ficando em torno de 0,5% ao ano, em média, entre 2011 e 2024. Isso se deve ao aumento significativo do número de milionários no Brasil, que saltou de 81 mil em 2011 para mais de 366 mil em 2023. Esse crescimento se explica pela inflação, crescimento do PIB e, principalmente, pela crescente concentração de renda, especialmente após a pandemia, como demonstra estudo recente do FiscalData.

E para onde vão os milionários? Os cinco destinos mais populares em 2025 foram: Estados Unidos, Portugal, Reino Unido, Uruguai e Espanha.

Michel Soler, diretor da Henley & Partners na América Latina, afirma que a saída de milionários é uma tendência de longa data, influenciada por fatores políticos e econômicos, buscando “estilos de vida diferentes, mais oportunidades e segurança”. Bruno Cury, da mesma consultoria, cita a incerteza gerada por mudanças tributárias como um “plano B” para os ricos.

Mas será que a tributação é a principal causa? Sergio Gobetti, pesquisador do Ipea, discorda. Ele questiona: “Para onde eles migrariam para ter um tratamento *melhor* do que já têm no Brasil?”. Afinal, como o governo argumenta, os ricos brasileiros pagam menos impostos que os de menor renda, devido à isenção de lucros e dividendos, algo raro no mundo. Gobetti acredita que a reforma do IR não mudará significativamente essa situação. Mesmo com a taxação de 10% sobre dividendos, o Brasil ficaria abaixo da média da OCDE.

Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, alertou para o risco de a reforma prejudicar a competitividade do país.

Embora a reforma atual não justifique uma *maior* saída de milionários, Carvalho Jr. reconhece a existência de incentivos em outros países, como Argentina, Costa Rica, Emirados Árabes, Espanha, Grécia, Paraguai, Portugal, Reino Unido, Suíça e Uruguai, que oferecem benefícios fiscais para residentes ricos (embora Portugal e Espanha tenham paralisado novos vistos recentemente). Ele defende a criação de um “imposto de saída” e o fim da isenção de fundos para não residentes. Gobetti, por sua vez, enfatiza a importância da tributação de dividendos enviados ao exterior.

Em resumo: menos de 1% dos milionários brasileiros saem do país anualmente, e essa taxa está em queda. A reforma do Imposto de Renda, embora polêmica, parece não ser o principal motivador dessa saída, que é mais complexa do que aparenta.

Fonte da Matéria: g1.globo.com