Em São Paulo, dois profissionais perderam seus empregos após criticarem publicamente o retorno ao trabalho presencial. Wanderley Bueno, coordenador de segurança da informação, desabafou no WhatsApp sobre o cansaço de ir trabalhar de trem lotado, enquanto gestores chegavam de SUV, tranquilos. “Ainda tem gente que defende o presencial. Enquanto eu tô aqui, passando por isso, muitos gerentes vão pra casa em suas SUVs, com ar-condicionado, tranquilos”, escreveu ele. A mensagem, inicialmente um desabafo pessoal, chegou à diretoria. Resultado? Wanderley foi afastado de reuniões, perdeu influência, e, um mês e meio depois, foi demitido.
Na mesma cidade, Jenifer Matias, especialista em gestão de risco e compliance, viveu situação semelhante. Presa por quase quatro horas no metrô durante um incidente, sem ar-condicionado e com pessoas passando mal, ela desabafou no LinkedIn sobre a necessidade do trabalho remoto. As postagens, segundo Jenifer, sempre foram respeitosas. Mesmo assim, chamaram a atenção da chefia. Alertas informais se seguiram, culminando na demissão. A justificativa? Quebra de confiança e insatisfação com a empresa, mesmo sem mencionar o nome da companhia. “Fui demitida por expressar uma opinião que todos compartilhavam, até a minha gerente!”, contou, indignada.
As histórias de Wanderley e Jenifer refletem uma tendência crescente: o retorno ao presencial e a diminuição de vagas com home office. Como mostrou reportagem do g1 em fevereiro de 2024, muitas empresas estão revisando suas políticas de trabalho remoto, reduzindo benefícios ou exigindo mais presença física. Só que essa volta ao escritório nem sempre considera quem se adaptou ao trabalho remoto ou reorganizou sua vida para isso.
Daí a frequência de reclamações nas redes sociais. Muitas empresas, porém, veem essas manifestações como falta de alinhamento cultural, justificando demissões. Mas será que isso é justo? Afinal, as redes sociais também são espaços para desabafos sobre o dia a dia. A pergunta que fica é: até onde podemos usar as redes como um diário pessoal? As empresas podem controlar o que seus funcionários publicam fora do ambiente de trabalho? Demitir alguém só por discordar é aceitável?
**”Aprendi da pior forma que colegas não são amigos”,** lamentou Wanderley, que trabalhava até 13 horas por dia, era acionado fora do expediente e ainda tinha que encarar o trajeto entre Itaquera e o centro de São Paulo. A gota d’água foi descobrir que um colega de mesmo nível hierárquico repassou seu desabafo à chefia. “Se fosse eu, chamaria o colega para um café e diria: ‘Apaga isso, vai te prejudicar'”, disse ele, decepcionado. O episódio, segundo Wanderley, foi um atentado à liberdade de expressão, mudando sua visão do ambiente corporativo. Desde então, ele parou de adicionar colegas em suas redes pessoais, evita compartilhar sua vida privada e revisa suas postagens com ajuda de inteligência artificial.
Jenifer, por sua vez, passou a defender o home office após o incidente traumático no metrô. Na reunião de desligamento, ouviu da gerente que suas postagens prejudicavam a imagem da empresa. “Hoje, me pego pensando: será que preciso deixar de ser eu mesma para não perder um emprego?”, questiona. A situação pós-demissão também foi tensa: colegas que curtiram sua mensagem de despedida foram repreendidos e orientados a apagar os curtidas. Jenifer recebeu mensagens privadas com pedidos de desculpas e relatos de medo de retaliação. Atualmente desempregada, ela pensa em empreender no turismo e pretende processar a antiga empresa. “Vou entrar com uma ação. As empresas precisam entender que opinião não é difamação”, afirma.
**O que dizem os especialistas em RH?**
Para Leyla Nascimento, diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), o problema começa com a falta de diálogo. Muitos profissionais buscam flexibilidade, mas não encontram espaço para conversar com a liderança. O desabafo nas redes sociais, então, se torna inevitável. Demitir por uma postagem, diz Leyla, deveria ser a última opção, não a primeira. Isso impacta o funcionário, o clima da equipe e a reputação da marca. “Se a demissão não for bem pensada, o funcionário sai com uma experiência ruim e isso pode prejudicar a imagem da empresa no mercado, como marca empregadora”, alerta Leyla. Postagens criticando o presencial são sinais de insatisfação e devem servir como alerta para a empresa melhorar o ambiente de trabalho, conclui ela. Muitas empresas, ainda, não têm diretrizes claras sobre o uso de redes sociais pelos funcionários.
**Postagens nas redes sociais podem levar à demissão?**
Sim, segundo a advogada Elisa Alonso. Tudo depende do teor da postagem e do impacto na imagem da empresa. Postagens que prejudicam a reputação, violam regras internas ou expõem informações sigilosas podem resultar em sanções, desde advertências até demissão por justa causa. Isso inclui informações estratégicas, dados de clientes (quebra de confidencialidade) e conteúdos discriminatórios. Essas regras valem mesmo fora do horário de trabalho, principalmente se o funcionário for facilmente identificado. Assédio virtual contra colegas também pode resultar em demissão.
Nos casos de Wanderley e Jenifer, as demissões foram sem justa causa. A empresa teve que pagar todos os direitos trabalhistas. Para o advogado trabalhista Affonso Garcia Moreira Neto, essa é uma opção mais segura para evitar conflitos. A justa causa é a punição mais severa e exige comprovação de dano à imagem ou quebra de regras internas. Mesmo em demissões sem justa causa, o trabalhador pode recorrer à Justiça se sentir perseguido ou que houve abuso. É possível pedir indenização por danos morais, como mostra um caso recente em que uma mulher recebeu R$ 30 mil de indenização após ser demitida por publicar críticas às ações de Israel na Cisjordânia (15ª Vara do Trabalho de São Paulo). A liberdade de expressão é um direito, mas não é absoluta. Se a postagem for respeitosa e não causar prejuízo direto à empresa, dificilmente será motivo para justa causa.
**As empresas podem controlar o que você publica?**
Sim, segundo a advogada Adriana Faria. A empresa pode proibir ou restringir publicações, desde que isso esteja previsto em contrato ou em política interna clara, não genérica ou abusiva. A regra precisa ser justificada, como proteção de informações confidenciais ou da imagem institucional. O RH deve desenvolver políticas claras e objetivas sobre o uso das redes sociais.
**Home office vai acabar?**
A disputa pelo melhor modelo de trabalho está longe de acabar. Muitas empresas estão abandonando ou reduzindo o home office, como Amazon e Dell. A taxa de vacância de imóveis comerciais está diminuindo, voltando a níveis pré-pandemia. Sites de recrutamento mostram menos vagas remotas e mais presenciais ou híbridas. A insegurança quanto à produtividade é a principal razão, segundo a ABRH. Uma pesquisa da Mercer Brasil revela dificuldades no modelo remoto: insegurança sobre a produtividade (76%), excesso de reuniões (66%), dificuldade em acompanhar iniciantes (51%), desafios na liderança (61%) e a cultura organizacional (52%). Mas os problemas, segundo especialistas, vêm de falhas internas das empresas: planejamento deficiente, falta de maturidade dos colaboradores para gerir tempo e tarefas, e perfis de negócios que dependem de colaboração constante.
Para muitos, o retorno ao presencial é inviável. O home office oferece autonomia, redução de custos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Em 2024, cerca de 8,5 milhões de brasileiros pediram demissão voluntariamente. Entre os motivos: falta de flexibilidade (15,7%), dificuldade de locomoção (21,7%), necessidade de cuidar da família (9,1%). Além disso, há medo de assaltos, importunação sexual e falta de tempo para estudos ou saúde. A pergunta é: por que tantos preferem se demitir a abrir mão do home office?
Fonte da Matéria: g1.globo.com