Uberaba, Minas Gerais, início de maio. Quase meio milhão de pessoas e mais de 2.500 cabeças de gado lotam a ExpoZebu, uma festa gigantesca para celebrar a pecuária brasileira. A estrela? A “supervaca” zebu, uma raça geneticamente aprimorada que domina a produção nacional e fez do Brasil o maior exportador mundial de carne bovina, com 2,9 milhões de toneladas exportadas em 2024. Será que essas supervacas podem mesmo alimentar o planeta? A resposta, a gente descobre agora.
A fotógrafa Carolina Arantes, que passou 10 anos documentando a saga do zebu no Brasil, descreve a raça: “São animais enormes! Alguns chegam a 1,80m de altura, com chifres imensos, pele clara e aquela corcunda característica.” Anos de cruzamentos e seleção resultaram em animais que produzem carne de altíssima qualidade. Na ExpoZebu, exemplares excepcionais, verdadeiras joias genéticas, são exibidos e disputados a peso de ouro. Arantes explica: “É a maior feira de gado do Brasil, talvez do mundo! Jurados experientes escolhem os melhores animais.”
A dedicação dos criadores é impressionante. “O cuidado com os animais é inacreditável”, conta Carolina. “Eles banham, escovam, cuidam do pelo… É um trabalho de 24 horas por dia para deixar os zebus impecáveis.” E todo esse esforço vale a pena. Ganhar um prêmio na ExpoZebu significa um retorno financeiro colossal. Em 2023, uma vaca foi vendida por inacreditáveis R$ 25 milhões! Claro, esses animais de elite não vão para o abate. Seu valor está no seu material genético, que garante a próxima geração de supervacas. Um exemplo? O touro Gabriel, uma verdadeira celebridade, pai de cerca de 600 mil bezerros!
Esse sucesso elevou o rebanho zebu a números estratosféricos: 225 milhões de cabeças no Brasil, com planos ambiciosos de dobrar essa cifra! Mas essa história de sucesso não começou ontem.
O historiador Oscar Broughton, da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, contextualiza: “A pecuária brasileira começou com a colonização portuguesa, no século XVI. Usava-se o gado crioulo, pequeno, importado da Península Ibérica. Era uma fonte barata de proteína, principalmente na forma de carne seca, para alimentar os escravizados.” Mas alimentar as cidades em expansão e atender a demanda internacional exigia mais.
No século XIX, com a globalização impulsionando o mercado de carne, principalmente na Argentina e no Uruguai, o Brasil precisou se modernizar. A produção, concentrada no Sul, precisava avançar para o Norte, o que gerou um problema: o gado crioulo não se adaptava ao clima tropical.
A solução veio da Índia: o zebu. Broughton explica: “O zebu é resistente ao calor, doenças e pragas. Suas patas longas, metabolismo lento e cílios longos o tornam ideal para o clima tropical.” Entre 1893 e 1914, mais de 2 mil zebus foram importados da Índia, dando origem ao induzebu, ou indubrasil.
As guerras mundiais impulsionaram ainda mais a demanda. Broughton destaca: “A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais criaram uma demanda enorme por carne, couro e outros produtos pecuários. O Brasil aproveitou a oportunidade e se tornou um gigante, superando Argentina e Uruguai.”
O golpe militar de 1964 consolidou a carne como pilar da economia. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), criada na década de 1970, foi fundamental, desenvolvendo novas tecnologias e pastagens resistentes ao calor. A pecuária se expandiu para a Amazônia, criando uma poderosa força política, a “bancada BBB” (Bala, Boi e Bíblia), com grande influência no cenário político brasileiro.
Professor Cássio Brauner, do Departamento de Zootecnia da UFPel, reforça: “Nossos criadores fizeram um trabalho fantástico! Temos as melhores raças zebu do mundo, o que nos tornou o maior exportador mundial. A demanda chinesa impulsiona ainda mais esse crescimento.”
O sucesso se deve ao baixo custo de produção: “Nosso sistema é baseado em pasto, muito barato, e a mão de obra é competitiva”, explica Brauner. Além disso, o consumo interno aumentou, com o tradicional churrasco de domingo unindo famílias em todo o país. O cupim, um corte nobre que vem da corcunda do zebu, é um dos queridinhos.
Mas há um lado negativo: o impacto ambiental. Professor Marcos Barrozo, da Universidade DePaul, em Chicago, explica: “As vacas produzem metano, um potente gás de efeito estufa. E a expansão da pecuária causa desmatamento, principalmente na Amazônia.”
A boa notícia é que o zebu, por seu ciclo de vida curto e ganho de peso rápido, gera menos metano e consome menos pasto por quilo de carne. Barrozo destaca: “Produz-se mais carne em menos tempo, com menos emissões e uso de terra.”
A questão da pecuária na Amazônia é complexa. Barrozo argumenta: “É difícil convencer um pecuarista amazônico a mudar. A pecuária é muitas vezes a principal fonte de renda e impostos para a região.”
Então, as supervacas brasileiras podem alimentar o mundo? Talvez não todos comam zebu brasileiro, mas sua genética pode ser a chave. Com o aumento das temperaturas globais, a resistência do zebu pode ser fundamental para outros países.
Brauner finaliza com otimismo: “Acredito que as supervacas ajudarão. Sua genética ajudará outros países a melhorar sua produção.”
*Ouça neste link o episódio do programa de rádio The Inquiry, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem.
Fonte da Matéria: g1.globo.com