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Colômbia: Assassinato de Pré-candidato Revive Espectro da Violência Política dos Anos 90

A morte do senador e pré-candidato à presidência da Colômbia, Miguel Uribe, baleado na cabeça em junho, reacendeu o fantasma da violência política que assombrou o país nas décadas de 80 e 90. A onda de atentados contra políticos, muitos em plena luz do dia – como o atentado contra Uribe –, trouxe de volta memórias de um passado sangrento. A gente se pergunta: será que a Colômbia está prestes a mergulhar numa nova era de terror político?

Em junho, Cali foi palco de um verdadeiro massacre. Em apenas cinco horas, 24 ataques deixaram oito mortos e pelo menos 62 feridos, entre civis e policiais. Explosões de carros-bomba, granadas e rajadas de fuzil contra quartéis e prédios públicos: uma cena de guerra no coração da cidade. A região, um corredor estratégico para o narcotráfico, é cobiçada por grupos armados.

O caso de Uribe, de 39 anos, foi o mais brutal. Ele foi atingido pelas costas durante um ato político em Bogotá, a um ano das eleições. Opositor ferrenho de Gustavo Petro, o senador ficou dois meses em estado crítico. Um adolescente de 15 anos foi preso, confessando o crime em vídeo – segundo a Reuters – motivado por dinheiro e para ajudar a família. As autoridades investigam, mas o governo admite que o aumento da violência lembra o modus operandi de guerrilheiros, paramilitares e cartéis do passado. “Inaceitável que tenhamos voltado a 1989”, desabafou o prefeito de Cali, Alejandro Eder, ao jornal El Tiempo. Na real, esse foi o ataque mais grave a uma figura política desde a violência na campanha presidencial de 1990.

Essa escalada de violência acontece em meio à polarização política em torno da “paz total” proposta por Petro. A gente lembra que, na campanha de 1990, três candidatos presidenciais – Luis Carlos Galán, Bernardo Jaramillo e Carlos Pizarro – foram assassinados. Diana Turbay, jornalista e mãe de Miguel Uribe, também foi vítima, sequestrada e morta por Os Extraditáveis, grupo ligado a Pablo Escobar. Ela, filha do ex-presidente Julio César Turbay Ayala, também foi atingida pelas costas, durante uma tentativa de resgate. Naquela época, segundo organizações de direitos humanos, mais de 200 mil pessoas foram mortas em ações similares.

O Ministério da Defesa culpa o Estado-Maior Central (EMC), a maior facção dissidente das FARC, pelas explosões recentes. Eles veem os atentados como retaliação ao avanço militar em Cauca e Valle del Cauca. Iva “Mordisco”, líder do EMC e homem mais procurado da Colômbia (com recompensa de cerca de um milhão de dólares pela sua captura), continua ativo, apesar de boatos sobre sua morte. Ele se recusou a acatar o acordo de paz de 2016. Na mesma região atua o ELN, maior grupo guerrilheiro de esquerda do país. Políticos como Vicky Dávila e Daniel Quintero também relataram ameaças, levando Petro a reforçar a segurança de autoridades e cancelar eventos de pré-campanha.

Andrew Traumann, professor de relações internacionais e autor de “Os Colombianos”, disse à DW que os ataques visam afastar a polícia de áreas controladas pelo narcotráfico. EMC, ELN e o Clan del Golfo disputam o território dos antigos cartéis de Cali e Medellín. “É uma tática usada pelas Farc nos anos 90”, afirma Traumann.

Olha só, a “paz total” de Petro, iniciada em agosto de 2022, tá longe de ser um sucesso. As negociações de paz avançaram pouco, e a Justiça Especial para a Paz se mostrou ineficiente na reintegração dos guerrilheiros, fortalecendo os grupos que permaneceram ativos. Em janeiro, ELN e dissidentes das FARC travaram um conflito no nordeste, matando 100 pessoas, a maioria civis. Petro suspendeu as negociações e reativou mandados de prisão contra líderes do ELN. A ONU estima que quase 1 milhão de pessoas foram afetadas pela violência armada entre janeiro e abril de 2025, quatro vezes mais que no ano anterior. O CICV e a Human Rights Watch apontam para uma crise humanitária sem precedentes desde 2016, com aumento significativo de homicídios e sequestros. A Arquidiocese de Bogotá alertou para o risco de guerra civil.

A polarização política tá no auge, principalmente contra Petro, que não pode se reeleger em 2026. Sua eleição representou uma mudança significativa no cenário político colombiano, e ele enfrenta resistência de outros poderes. Traumann acredita que a “paz total” fracassou, fortalecendo a ala que defende a punição em vez do diálogo. Na segunda-feira, nove legendas boicotaram uma reunião de Petro sobre segurança para as eleições de 2026, acusando-o de incitar o ódio. A oposição diz que isso contribuiu para a tentativa de assassinato de Uribe, que havia pedido reforço na segurança. O partido Cambio Radical afirmou que o debate político deve ser baseado em respeito e argumentos, não em mentiras e insultos.

Por fim, a crise de segurança acontece em paralelo à tentativa de Petro de aprovar uma reforma trabalhista, que foi rejeitada pelo Senado. Petro ordenou uma consulta popular, medida considerada ilegal pela oposição, que recorreu a instâncias internacionais. Andrés Hoyos, do El Espectador, escreveu que o atentado contra Uribe “era o que faltava” para que as ameaças ao Estado de direito se tornassem realidade.

Fonte da Matéria: g1.globo.com