A personagem Odete Roitman, da novela “Vale Tudo”, remake exibido em 2025, voltou a colocar em discussão um tema que parece acompanhar o Brasil há décadas: o pessimismo crônico em relação ao próprio país, o famoso “complexo de vira-lata”. A frase “Esse país não vai pra frente porque o povo não gosta de trabalhar, é um povo preguiçoso”, dita pela empresária interpretada por Débora Bloch, resume bem essa visão, que segundo a autora Manuela Dias, já está “saturada”. Mas será que essa autodepreciação nacional realmente saiu de moda?
Especialistas consultados pela DW afirmam que não. O pessimismo oscila, ora mais intenso, ora menos, mas permanece presente no imaginário coletivo. Sucessos recentes de atletas e artistas brasileiros – como a medalha de ouro da ginasta Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Paris, a prata de Hugo Calderano no mundial de tênis de mesa, o Oscar de “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles e a Palma de Ouro de melhor ator e direção para “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho em Cannes – acendem, sim, a chama do orgulho nacional. Mas, na real, isso não é suficiente para apagar o incêndio da insegurança.
Nelson Rodrigues, lá em 1958, já havia identificado essa “falta de fé em si mesmo” em sua crônica “À sombra das chuteiras imortais”, publicada na revista Manchete. Ele descreveu o brasileiro como “um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. A vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo daquele ano, contra a Suécia, parecia ter superado, ao menos temporariamente, essa autocrítica ferrenha. Só que, tipo assim, o problema é mais profundo.
Gilberto Maringoni, pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC), argumenta que conquistas esportivas e culturais são paliativos. A economia, segundo ele, é o cerne da questão. Em 1958, o Brasil vivia um período de crescimento econômico, com a construção de Brasília e o impulso industrial. Mas, desde os anos 1980, o país enfrenta ciclos de hiperinflação, desemprego e uma indústria com participação cada vez menor no PIB. “A economia vive um constante voo de galinha”, afirma Maringoni. “Quando precisamos importar tecnologia, reforça-se a ideia de que não somos capazes de produzi-la. E quando focamos em exportar commodities, parece que não conseguimos produzir mercadorias sofisticadas. Mas o Brasil *tem* capacidade de inventar!”
Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada em abril, mostra que 44% dos brasileiros consideram o mercado de trabalho ruim e 37% avaliam a situação econômica familiar como desfavorável. Criminalidade, corrupção e inflação são apontados como os maiores problemas. Eduardo Giannetti, economista, acredita que o país se encontra num ponto intermediário entre a inferioridade e a autoestima. “O Brasil viveu um momento de quase euforia no fim do segundo mandato do governo Lula, com um caminho promissor de crescimento econômico e ascensão da classe média. Agora, com a economia em baixa, essa confiança é improvável”, explica.
Para Giannetti, essa visão pessimista é alimentada por uma elite econômica e acadêmica que enxerga o Brasil como uma “cópia malfeita” da civilização ocidental, ignorando aspectos culturais que valorizam as relações humanas acima do consumo desenfreado e da tecnologia.
A raiz desse sentimento, segundo os pesquisadores, está enraizada na colonização e na miscigenação. Maringoni explica que o complexo de vira-lata foi “inoculado” na população para controlar a força de trabalho escravizada. A imigração europeia após a abolição da escravidão em 1888, associada a teorias racistas de intelectuais como Nina Rodrigues e Silvio Romero, reforçou essa visão de inferioridade. Giannetti discorda da nomenclatura “complexo de vira-lata”, considerando-a problemática por seu subtexto racista. “O vira-lata é a miscigenação. A ideia de que o puro é superior ao misturado é muito grave, denota discriminação racial. O verdadeiro complexo é achar que há algo errado em ser vira-lata.”
Marcia Tiburi, filósofa, vai além: quem realmente carrega esse complexo não são os grupos marginalizados, mas as classes dominantes. “Essa humilhação é uma tecnologia política usada pelos poderosos para explorar os mais pobres, mulheres e negros.” A repetição constante dessa narrativa por intelectuais e elites criou uma “verdade” que domina a subjetividade. Mas, segundo Tiburi, movimentos sociais negros e feministas, por exemplo, estão ajudando a superar essa humilhação coletiva, construindo uma identidade orgulhosa.
Para superar o pessimismo, os especialistas defendem não apenas uma mudança de mentalidade, mas também melhorias concretas nas condições de vida, com foco em educação, transporte, segurança e saneamento básico. Dados como 29% de analfabetismo funcional, 37,5% de casas sem acesso à rede de esgoto e 27,6% de domicílios com insegurança alimentar mostram a dimensão do desafio. Giannetti finaliza com uma citação de Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi? Eis a questão. A resposta é tupi *and* not tupi. Vamos absorver o que há de bom na cultura ocidental moderna, mas sem perder nossa originalidade”.
Fonte da Matéria: g1.globo.com